Deixa o barco seguir.

22:27

Era tarde demais para correr do ciclo vicioso de evitar qualquer tipo de participação relevante na vida de qualquer terceiro. Como um novelo de lã, eu estava enrolada até o pescoço nas causas do desapego, da vida unitária, do indivíduo e suas questões próprias, e esquecida demais do que era incluir involuntariamente alguém no meio de tantos planos para o futuro.
A psicologia de Nietzsche, o número 7, a evolução da Nova Era, a maturidade dos quase 25, a infantilidade do não querer chegar, a ansiedade do não querer perder o meu eu tão bem talhado por anos, em sólida distância de sentimentos profundos - me mantive.
Alguns seres compostos por miocárdio, deixei ir; outros por boa cabeça, nem quiseram ficar.
Era tão sincero, viver como um ser, uma instituição, um organismo, completa, fechada, e única.
Não existiam encaixes ou pares para mim, e mesmo que se esforçassem bastante, algo parecia ter força bastante para me manter distante.
Deixei um ser muito ferido. Partido ao meio. Acho que foi uma das piores mortes que encarei em 2016, que acaba de começar. A morte de um vivo, que ainda vive, mas não para mim.
Suicida, escolheu partir sem aviso ou carta de até logo.
Nem disse o até nunca mais. Não disse nada. Talvez tenha noção do quanto isso tortura muito mais.
Eu vou seguindo. Distante. Como de costume. Fria, acusada por vezes injustamente, dessa vez me cabe.
De uma onda gigante de alegrias, o mar deixou na ressaca da praia, algumas conchas quebradas, furiosas e afiadas para meus pés passarem perto. De toda a ressaca, uma pérola se prendeu em minha roupa e ficou. A rapidez da onda não me permitiu decidir. Quando notei, estava com a roupa ornada de uma preciosa deixa.
O pior vem agora - parece que me tornei ladra do mar, por ter ganhado um de seus tesouros, mesmo que por acaso.
Mas diga? Quem não gostaria de ter pérolas em sua vida? Qual foi o meu pecado?
E se eu disser que a pérola se alojou justamente entre duas pedras que faziam o meu peito ser muralha? E a maneira que essa pequena peça brilhante influenciou as pedras a se afastarem um pouco, até criar fresta e o Sol entrar?
Algo mudou demais, e raras são as coisas que caminharam para melhor!
Um desequilíbrio evidente no meu muro, nas minhas redomas de segurança!
O que fazer? Como lidar? Como arrumar? Como devolver as coisas para seus lugares? Quem está habitando aqui dentro do meu peito? De onde vem essas vozes estranhas? Por qual motivo muitos reclamam? Por qual motivo maior ainda, uma voz se declara imersa nos pensamentos de me querer?
Tudo saiu do lugar.
Era tempo de sair, mas assim, num jogo de Resta Um, foi terrível.
Antes um lar, agora tenho uma casa vazia e vários móveis do lado de fora.
Hora de colocar tudo em seu novo lugar... Mas ninguém pediu mudanças assim, bruscas.
Eu só pensei em trocar o papel de parede, mas me arrancaram até os copos da cristaleira.
Tempo de redescobrir.
Redescobrir um coração mais humano, uma mente que deve confiar no outro, um estado psicológico pronto para não cair em paranoia competitiva e um espírito compartilhado.
Tudo com marcas de espancamento, mas ainda por existirem.
Mesmo com os roxos, as coisas vão voltar para seus lugares.
Então sem desespero, volte ao título deste texto.


luto.

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