Dos amores que adoravam Converse ao invés de Calvin Klein.
23:17Me recordo de um tempo em que as pessoas precisavam apenas dar as mãos, e um sim dito em dupla tornava-os um casal.
Era tudo tão simples, seguro, confiável, quase escolar, pois as cartas tinham as marcas dos cadernos daquele alguém, como algo subscrito "não esqueça de onde arranquei esta folha!".
O ato dedicado de escolher uma folha bonita, pedir para a amiga aquela folhinha que tinha decoração especial nas margens, para emoldurar uma cachoeira de palavras doces que a gente ficava lendo sem parar, até a carta ficar azul, de tanto que guardávamos nos nossos jeans sujos de caneta.
O treino do real significado da palavra "premeditar", pois era esse o verbo de esperar o momento perfeito para entregar aquelas escritas tão envergonhadas e quentes de carinho.
A reação do outro era imediata. Não tinha emoticons. Era ali, na hora.
Se não existia reação de quem recebia, o choro de quem entregara também era honesto, e jamais disfarçado com futuros atos de orgulhos transcritos em indiretas numa página online e muito menos com vácuos nas mensagens recebidas daquele que nos rejeitara anteriormente.
Não tinha selfie no bar depois de ouvir um não!
Tinha a gente se isolando na quadra esportiva da escola, ouvindo nosso Disc-Man de cabeça baixa. (clique se você nasceu depois de 1995)
Mas o que levava a gente aos atos românticos?
Era aquela dança na festa junina que sem querer, gelava a mão na hora de tocar seu par!
Era o próprio Disc-Man dividido no corredor, que deixava a gente com os rostos tão próximos que era possível enxergar o outro além do ver.
Era as revistas que a gente trocava.
Era meu tênis allstar, cheio de correntes e tachinhas que eu mesma aplicava e te fazia me admirar como admirava suas deusas do rock.
Era minha vitória na educação física.
Aquele rolê no esquadro da bike numa tarde que tu passava lá em casa para tomar picolé de saquinho e manchar a camiseta com corante que pintava por 24 horas as mãos, língua, queixo, e qualquer coisa que encostasse nele. Era bom, manchar seu caderno. Era quase um privilégio. A certeza de que eu era especial.
Tinha o dia em que eu pintava o cabelo com papel crepom e você me achava mais legal que a magrela da oitava série. Mesmo ela usando sutiã e eu ainda não!
Existia uma simplicidade no gostar.
A gente namorava se você me deixasse riscar a capa de trás da agenda anual.
E era uma prova de estabilidade, pois ficaria ali por no mínimo um ano inteirinho.
A gente namorava se você me ajudasse na lista de exercícios de matemática.
Se passasse o intervalo comigo, numa sala quase vazia, só pra bater papo, cheio daquele silêncio de quem receia perder a chance de conquistar o outro por uma palavra torta.
Meu ciúme era quando a garota do outro turno pedia para você encher a squeezer dela e você aceitava. Ou quando você não fazia o trabalho de equipe comigo.
E se pela tarde a gente se encontrasse na padaria? Sem querer? Eita arrependimento louco, de ter usado a camisa da feira de ciências do ano passado!!!
Eu poderia ter penteado os cabelos, né?
Mas não tinha como eu saber... não tinha WhatsApp, e não ligávamos para celulares, afinal a MTv era perfeita para passar a tarde vendo sem se preocupar.
Você ouvia Oasis? Ainda escuta? E o pôster que te dei? Ainda está colado no seu armário?
Diga se não foi o melhor presente da sua vida? Claro que foi!!!
Mas e hoje?
Hoje para namorar, você me cobra que não me atrase 5 minutos para encontrar com você no café!
Hoje você se importa se eu não retribuir com um emoticon frio aquele textão de amor que você postou para mim por pura necessidade de se convencer que me ama.
Eu li, gostei, mas queria que me dissesse quando estou com você, naquele silêncio que me sobra ao sono na rede.
Você nem gela mais para falar que me ama, porque acostumou a dizer isso como fim de ligações telefônicas pedindo para descongelar o frango.
Você hoje repara na minha calcinha bege, na minha foto no instagram, nos caras que curtem, nas minas que curtem e eu ainda converso. Diz que não são mulheres para mim.
Hoje você primeiro analisa se eu tenho uma visão incrível do futuro e se posso te facilitar algo.
Hoje você critica minha vida como se ela fosse a sua.
Você bebe de enormes goles, todas as coisas boas e ruins que faço. As ruins com goles ainda maiores.
Hoje você decide por mim! Evita meus pais, meus amigos, meus rolês, ou qualquer coisa que simplesmente não consegue concordar. Você escorre.
Hoje, importa e muito que eu tenha carro, que eu more em Boa Viagem, que eu tenha uma calça jeans tamanho 36 e a cintura de violão.
Aquele meu cabelo colorido de antes, hoje ficaria lindo com a raiz natural e as pontas platinadas.
"Usa assim, amor. A menina da revista fez e você ficaria linda que nem ela." -Não.
Hoje interessa o bar que frequento, e se eu não fumo a mesma erva que você.
Importa muito se eu demorar para responder sua mensagem.
Importa se eu demorar para te visitar.
Importa se eu demorar para te visitar.
Importa se eu não te pedir permissão para sair.
E nem me deixas mais viajar para a cidade que gosto. Meus amigos são ameaças para você!
Afinal. Por que você quer tanto que eu acerte na vida como você acertaria se estivesse no meu lugar?
Você está vivendo a minha vida. Você está tomando conta dela, e com enorme medo de que eu perca meu apartamento na zona Sul. Você olhou para mim porque tenho algo que você queria muito viver.
Inveja.
Aquele namoro por causa do CD que te gravei no ensino médio; hoje só rola por causa do restaurante que eu te levei na sexta-feira. E se eu não te buscar em casa, não adianta de nada ter deixado você escolher o cardápio.
A gente queria viajar, mas você não topa andar de ônibus comigo.
A gente queria dormir na casa do nosso amigo depois de jogatina, mas você não queria entender que eu estaria ali por amizade a ele e amor a você. Você barra tudo porque não tem dinheiro para a cerveja que gostaria de tomar. Dane-se a minha companhia. Sem cerveja, melhor nem acontecer.
Afinal, era tudo pela cerveja, então.
Será que ainda me aceitariam com 24 anos, na escola do fundamental II?
Eu te ajudaria em química e biologia.
Você me empresta a lapiseira?
Eu desenho os átomos para você no caderno.
Você poderia encher minha squeezer de água?
E esquecer aquela cerveja que só te distanciaria dos meus olhos para um mundo semiconsciente?
Eu saberia que aquela cartinha era sua, afinal, só você tem caderno da Jandaia na aula de Física!
E a caneta azul é essa do seu bolso.
E quer saber? A caligrafia é sua. Brechei pela sua prova quando peguei com o professor para te entregar em segundo depois no fundo da sala.
Risca minha farda no fim do ano ao invés de me riscar da sua timeline e apagar minhas fotos.


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